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História da Maçonaria no Brasil

Tiradentes: Seu papel na História e a Mitomania Maçônica

Todos os anos sempre tem alguém para me perguntar se Tiradentes foi maçom. Aqui está um artigo meu, que fala bastante sobre esse personagem e sua relação com a Maçonaria.

Joaquim José da Silva Xavier, mais conhecido como Tiradentes, herói nacional, teve papel fundamental para a consolidação da República 100 anos depois de sua morte. Todo ano no feriado de Tiradentes, muitos maçons utilizam largamente a figura do conjurado como símbolo da Luta Maçônica contra o despotismo em favor da liberdade. Agora, a pergunta a ser feita é a seguinte: Como pelo menos 10 anos antes da maçonaria existir no Brasil, Tiradentes foi feito maçom? Antes disso, vamos falar um pouco da vida e influência do alferes como herói nacional.

Segundo SILVA (2023), de origem humilde, Joaquim José da Silva Xavier perdeu os pais ainda na juventude, sendo obrigado a trabalhar em diversas profissões para sustentar-se, inclusive de dentista amador, que lhe rendeu o apelido de Tiradentes. Segundo o Historiador “Ele também havia trabalhado na mineração, porém, foi no posto de alferes nos quadros da cavalaria imperial que Tiradentes alcançou certa estabilidade. Apesar da pouca instrução, ele era um republicano convicto e adepto dos ideais do Iluminismo.”.

A Inconfidência Mineira, como tratado anteriormente no blog, foi um movimento em 1789, inspirado nas ideias iluministas Europeias, de caráter emancipacionista, em consequência da insatisfação da elite de Vila Rica em relação às altas taxas do governo português sobre a extração de ouro. O movimento foi deflagrado em decorrência da denúncia de Joaquim Silvério dos Reis, inicialmente um dos conjurados, mas que em troca do perdão de suas dívidas, traiu o movimento. Após 3 anos de devassa sobre o movimento, 10 pessoas foram condenadas ao enforcamento, mas só o Alferes foi executado. Acredita-se que Tiradentes foi o bode expiatório do movimento, pois era o único que não pertencia a elite mineira, sendo todos os outros perdoados pela Própria Dona Maria, monarca de Portugal.

Como pena exemplar, o Alferes foi enforcado no Rio de Janeiro, e teve seu corpo esquartejado, tendo seus pedaços em exposição na estrada de acesso a Ouro Preto e sua cabeça em uma estaca na praça central da cidade.

Exaltação da figura do Mártir

Tiradentes, durante todo o período imperial brasileiro, foi esquecido pela maior parte do nosso povo, aqui cabe uma ressalva, exceto para republicanos e muitos maçons simpáticos a ideia de liberdade que o símbolo expressava. Porém, com o advento da Proclamação da República, era necessário exaltar uma figura que fazia oposição ao Império, a monarquia. E quem melhor para retratar esse símbolo que Tiradentes? Personagem que durante a devassa, acredita-se que não negou nenhuma vez a sua participação na Conjuração. Que desafiou Dona Maria, Predecessora dos Imperadores. Que não tinha uma imagem conhecida, podendo-se modelá-la de modo a angariar a simpatia do povo.

Segundo o professor José Murilo de Carvalho (apud DOMINGUES, 2022):

Heróis são símbolos poderosos, encarnações de ideias e aspirações, pontos de referência, fulcros de identificação coletiva. São, por isso, instrumentos eficazes para atingir a cabeça e o coração dos cidadãos a serviço da legitimação de regimes políticos. Não há regime que não promova o culto de seus heróis e não possua seu panteão cívico. (…) A falta de envolvimento real do povo na implantação do regime leva à tentativa de compensação, por meio da mobilização simbólica.

A República teve um início conturbado e não tinha grande apelo popular, por isso dia 21 de abril de 1890 Tiradentes tornou-se símbolo da república, e foi decretado feriado nacional. (DOMINGUES, 2022).

CARVALHO (1990) diz o seguinte sobre o Conjurado:

Na figura de Tiradentes todos podiam identificar-se, ele operava a unidade mística dos cidadãos, o sentimento de participação, de união em torno de um ideal, fosse ele a liberdade, a independência ou a república. Era o totem cívico. Não antagonizava ninguém, não dividia as pessoas e as classes sociais, não dividia o país, não separava o presente do passado nem do futuro. Pelo contrário, ligava a república à independência e a projetava para o ideal de crescente liberdade futura. A liberdade ainda que tardia.

Como não tinha imagem, a cristianização do Mártir brasileiro foi uma estratégia republicana, por isso os contornos religiosos para exemplificar cristo, como barba crescida e olhar elevado aos céus (DOMINGUES, 2022), foram personificados na figura de Tiradentes em muitas pinturas da época.

Maçonificação de Tiradentes

Não é de sempre que os maçons brasileiros ligam a figura de Tiradentes a maçonaria. Muitos faziam referência ao Mártir ainda na época do Império. Em uma busca nos boletins do Grande Oriente do Brasil e do Grande Oriente Unido do Brasil constantes na Biblioteca Nacional, utilizando diversas variações de Palavras-chave, encontrei ovações em relação ao Conjurado em dois discursos antes da Proclamação da República.

O primeiro, no boletim do Grande Oriente do Brasil de julho de 1873, como símbolo de patriotismo. O segundo, no boletim da mesma obediência de maio de 1875, compara Tiradentes com Jacques de Molay e outras figuras em símbolo de afronta a tirania.

No Boletim do Grande Oriente Unido do Brazil, também conhecido como Grande Oriente dos Beneditinos, sabidamente de orientação política republicana, tinha uma Loja e um Capítulo intitulado Tira-Dentes em referência a Joaquim José da Silva Xavier.

Após a Proclamação da República, as citações a Tiradentes aumentam consideravelmente, mas sempre com sinônimo de Liberdade, ou Patriotismo. Mas nenhuma liga o nome de Joaquim José da Silva Xavier ao da maçonaria ou insinua sua iniciação ou participação em reunião maçônica.

Os maçons nomeavam lojas e escolhiam pseudônimos para suas identidades maçônicas baseados em diversos personagens históricos, sem a necessidade destes terem pertencido as fileiras maçônicas anteriormente, mesmo porque a maçonaria moderna nasceu em 1721 com a Grande Loja de Londres. A exemplo disso, o próprio Imperador Pedro I ao ingressar na maçonaria, escolhe o nome do último Imperador Asteca (Guatimozin), e temos certeza que não foi por Guatimozin ter sido maçom. Ou seja, os maçons brasileiros do Século XIX, compreendiam que podiam homenagear personalidades por seus aspectos políticos, sociais e filosóficos.

Segundo MORAES (2014) foi Tenório d’Albuquerque, baseado em Canêco Amassado, que popularizou a informação sobre a suposta iniciação de Tiradentes e sua qualidade maçônica. Essa informação caiu nas graças dos maçons brasileiros, e acredito que o motivo seja o simples fato da necessidade de pertencimento de uma personalidade maçônica aos movimentos históricos brasileiros, como parte integrante dele.

Em nossas fórmulas maçônicas, a exaltação da busca pela verdade é constantemente incentivada. Mas parece que para grande parte dos maçons este ensinamento não é válido, pois constantemente apresentam um pensamento “de que se foi importante para algum momento da História, com certeza era maçom.”, assemelhando com uma mitomania no quesito de falsear a realidade para fazê-la melhor.

Enquanto isso, esquecem-se do que realmente a maçonaria brasileira partilhava com a Inconfidência Mineira: A liberdade baseada nos ideais Iluministas.

Referências
SILVA, Daniel Neves. “Tiradentes”; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/biografia/tiradentes-biografia.htm. Acesso em abril de 2023.
FERNANDES, Cláudio. “O que foi a Inconfidência Mineira?”; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/o-que-e/historia/o-que-foi-inconfidencia-mineira.htm. Acesso em abril de 2023.
DOMINGUES, Joelza Esther. “Tiradentes esquartejado”, de Pedro Américo: uma leitura crítica. Disponível em: https://ensinarhistoria.com.br/tiradentes-esquartejado-uma-leitura-critica/#1. Acesso em abril de 2023.
MORAES, Marco Antônio de. TIRADENTES, MAÇOM INICIADO? Revista Ciência e Maçonaria. Brasília, Vol. 2, n.2, p. 89-95, jul/dez, 2014.
Boletim do Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brazil : Jornal Offical da Maçonaria Brazileira (RJ) – 1873 a 1877
Boletim do Grande Oriente do Brasil : Jornal Official da Maçonaria Brasileira, Publicação Mensal(RJ) – 1871 a 1899

Por Cloves Gregorio

Cloves Gregorio, 38 anos, casado com a senhora Gislene Augusta, Pai do Menino Átila, Historiador com especialização em Ciências Humanas Aplicadas ao mercado de trabalho e aperfeiçoamento em Neurociência aplicada ao ensino de história. Além do exercício de professor, é editor de livros.

Na maçonaria é Venerável Mestre de Honra (Past) da ARLS UNIÃO BARÃO DO PILAR Nº21 Jurisdicionada ao GORJ, filiada a COMAB. Na Obediência já exerceu os cargos de Grande Secretário Adjunto de Cultura e Ritualística e Grande Secretário Adjunto de Comunicação e Informática.

No Rito Escocês Antigo e Aceito, é Grande Inspetor da Geral, 33°.
No Rito Adonhiramita é Cavaleiro Rosa Cruz, 12º.
No Rito de York é Maçom do Real Arco.
Mestre Maçom da Marca.