Marc Bloch, importante historiador da Escola dos Annales, nos diz que um documento só fala, quando sabemos interroga-lo adequadamente. Por isso, resolvi olhar novamente para um documento que descobri quando ainda era Grande Secretário Adjunto de Cultura e Ritualística do Grande Oriente do Rio de Janeiro. O documento, um decreto do Grão-Mestre Victor Farias, instituía o avental de Mestre maçom na cor vermelha para o Rito Escocês Antigo e Aceito.
Como na própria descrição do documento, corresponde a um decreto do Grão Mestrado de 1998 do então Grande Oriente Independente do Rio de Janeiro (atualmente GORJ). Temos aqui a instituição, reiterada, da padronização da cor vermelha para as orlas do avental de Mestre Maçom, assim como a descrição das letras M e B. A sugestão da cor, foi feita pela Confederação Maçônica do Brasil (COMAB).
A primeira informação que o documento revela, é que os Grandes Orientes, oriundos do cisma de 1973, não nascem já com a cor vermelha para os aventais de Mestre Maçom no Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA). Foi uma sugestão da COMAB.
A segunda informação, é que este decreto reforça um ato anterior de 1994. Ou seja, a potência já tinha determinado como eram os aventais de mestre do REAA, mas aparentemente, nem todos os membros acataram. Neste momento, as determinações ficam mais rígidas, pois o Venerável Mestre deve proibir o ingresso dos irmãos que não estiverem paramentados adequadamente.
A Cor Vermelha para o avental de mestre não é uma invenção, mas um resgate da gênese dos Rituais, pois é amplamente adotado em quase todas as jurisdições que trabalham com o REAA. Inclusive em uma das primeiras traduções brasileiras do Guia dos Maçons Escoceses, fabricado por iniciativa própria da tipografia SEIGNOT-PLANCHER de 1834, encomendado pelo Grande Oriente Nacional Brazileiro (Grande Oriente do Passeio), trazia a cor escarlate com as letras M e B nos aventais. Como não tive acesso ao documento de orientação da COMAB, não posso afirmar com certeza qual foi a motivação para esta orientação. Mas alguns livros nos dão pistas desta.
Kurt Prober, pesquisador amador da história da maçonaria no Brasil, em prefácio no livro Rituais Maçônicos Brasileiros de 1996 de autoria de Joaquim da Silva Pires, afirma que a adoção do avental vermelho para o grau de mestre no REAA, seria por influência de Francisco de Assis Carvalho, mais conhecido por seu pseudônimo Xico Trolha. Essa informação parece real, tendo em vista que Xico Trolha foi um proeminente maçom, pesquisador e editor de livros maçônicos, além de ter sido Venerável Mestre da Loja de Pesquisas Brasil, jurisdicionada ao Grande Oriente do Paraná (COMAB). A sua pesquisa pode muito bem ter fundamentado a escolha.
Nas entrelinhas, o que essa sugestão significou?
Desde a cisão de 1973, que deu origem a COMAB, na maçonaria brasileira existiam ideias ambíguas em relação ao tratamento dessas dissidências. Enquanto uns queriam uma pacificação, quer reconhecidas através de tratados ou até mesmo a reincorporação, outros eram veementemente contra qualquer tipo de contato. Imagino que quando os aventais eram azuis, para os que queriam essa integração, de ambos os lados, era mais fácil se esquivar do olhar dos críticos. Ainda mais em uma era analógica.
A partir da determinação da cor vermelha para o avental de Mestre Maçom, cunhava-se uma identidade. Afirmava-se enquanto potência legítima e soberana, não deixando espaço para qualquer dissimulação. O Vermelho, além de resgatar a tradição do Rito Escocês Antigo e Aceito no Grande Oriente do Rio de Janeiro, traz um sentimento de orgulho e pertencimento.
Referências:
Grande Oriente Independente do Rio de Janeiro. Decreto nº45/98. Em 06 de Março de 1998.
Guia dos Maçons Escoceses. (1834)
BLOCH, Marc. Apologia da História ou O Ofício de Historiador. Rio de Janeiro: Zahar Ed., 2001.
PIRES, Joaquim da Silva. Rituais Maçônicos Brasileiros. Londrina – PR: Editora Maçônica “A TROLHA”. 1996. Pag 21.
PROBER, Kurt. Coletânea A Bigorna: boletim noticioso e novidadeiro. 1º volume – nº 1 até 33. Paquetá/RJ: Ed. Do autor. 1985.
ESTRELA DO RIO EM JORNAL. Carta de Repúdio. Ano 1, edição 03. Dezembro de 2012.
PIRES, Joaquim da Silva. O Azul e o Vermelho na orla do avental de mestre no Rito Escocês Antigo e Aceito. Astréa Revista de Estudos Maçônicos. Ano XC, nº 37. Rio de Janeiro – Jul 2015/ Dez 2015.
SPOLADORE, Hercule. Xico Trolha. Disponível em https://weber-varrasquim.blogspot.com/2011/10/xico-trolha-serie-macons-ilustres.html. Acesso em fevereiro de 2026.

